quarta-feira, 22 de julho de 2015

Fernado Pessoa


Meu pensamento é um rio subterrâneo.
Para que terras vai e donde vem?
Não sei... Na noite em que o meu ser o tem
Emerge dele um ruído subitâneo

De origens no Mistério extraviadas
De eu compreendê-las..., misteriosas fontes
Habitando a distância de ermos montes
Onde os momentos são a Deus chegados...

De vez em quando luze em minha mágoa
Como um farol num mar desconhecido
Um movimento de correr, perdido
Em mim, um pálido soluço de água...

E eu relembro de tempos mais antigos
Que a minha consciência da ilusão
Águas divinas percorrendo o chão
De verdores uníssonos e amigos,

E a ideia de uma Pátria anterior
À forma consciente do meu ser
Dói‑me no que desejo, e vem bater
Como uma onda de encontro à minha dor.

Escuto‑o... Ao longe, no meu vago tacto
Da minha alma, perdido som incerto,
Como um eterno rio indescoberto,
Mais que a ideia de rio certo e abstracto...

E p'ra onde é que ele vai, que se extravia
Do meu ouvi‑lo ? A que cavernas desce?
Em que frios de Assombro é que arrefece?
De que névoas soturnas se anuvia?

Não sei... Eu perco‑o... E outra vez regressa
A luz e a cor do mundo claro e actual,
E na interior distância do meu Real
Como se a alma acabasse, o rio cessa...
5-11-1914

sábado, 18 de julho de 2015

António Nobre - Ao Mar


(SONETO ANTIGO)

Ó meu amigo Mar, meu companheiro
De infancia! dos meus tempos de collegio,
Quando p'ra vir nadar como um poveiro
Eu gazeava á lição do mestre-regio!

Recordas-te de mim, do Anto trigueiro?
(O contrario seria um sacrilegio)
Lembras-te ainda d'esse marinheiro
De boina e de cachimbo? Ó mar protege-o!

Que tua mão oceanica me ajude,
Leva-me sempre pelo bom caminho,
Não me faltes nas horas de afflicção.

Dá-me talento e paz, dá-me saude,
Que um dia eu possa emfim, poeta velhinho!
Trazer meus netos a beijar-te a mão...



Via Filipe da Palma

Jorge de Sena - Post-Scriptum II




obrigada, Daniel

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Artur Pastor


Artur Pastor, registos de Arquitectura. Da Beira a Trás os Montes, décadas de 50 e 60.


Artur Pastor, registos de Arquitectura. Da Beira a Trás os Montes, décadas de 50 e 60.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Sebastião da Gama - O Cais

Já o cais não é de pedra,...
de tanto sentir o Mar.
Já não é, a pedra, lisa:
já ganha forma de velas
pandas de vento e de orgulho;
já deixou de ser branquinha
p'ra ser azul como as águas.


Já o cordame, que sonha
noite e dia sobre o cais,
o tem o sonho mudado
em algas prenhes de iodo.
Degraus de pedra se animam
e pelas ondas se atrevem
-botes sem mestre, perdidos,
sem outro leme que o gosto
de ir pelas ondas adentro.
 

Marujos que o nunca foram,
assentadinhos no cais
desde a hora de nascer,
quem foi que disse que tinham
raízes naquelas pedras?
- Já lhes despontam nas costas,
já por ares e mares os levam,
asas leves de gaivota.

Cada traineira que passa
convida o cais a sair.
Já o cais não é de pedra.
O sal moldou-lhe uma quilha,
as ondas o encurvaram,
os limos o arrastaram
p'ra lá de todo o limite,
e o cais cedeu ao convite
de ser um barco sem mestre.

Lá vai perdido nas ondas
e não lhe importa a chegada.
Deitou a bússola ao Mar.
Fez uma estaca do leme,
que atesta o sítio em que foi.
Voltou as costas à terra
e o seu destino cumpriu-se,
que era partir e mais nada.


Sebastião da Gama, Pelo Campo Aberto, Edições Arrábida

sábado, 30 de maio de 2015

António Barahona - MISTÉRIO DO SOM




III

A linguagem dos búzios
ensina a soletrar silêncio,
a fim de escrutar dentro de nós os
nomes ditos em segrêdo submarino.
Só reconheço que sou sábio neste
mistério, o que equivale a re-
conhecer que não sei nada, nem en-
tendo nada de nada mesmo que
seja tudo, pois só entendo o Todo.



António Barahona, O SOM DO SÔPRO, Poesia Incompleta

terça-feira, 5 de maio de 2015

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Fernando Martinez Pozal



Fernando Martinez Pozal
|fotografia do Arquivo Municipal de Lisboa | fotográfico



Fernando Martinez Pozal 
fotografia do Arquivo Municipal de Lisboa | fotográfico

sexta-feira, 27 de março de 2015

AFONSO LOPES VIEIRA - ESPUMA


Mais leve que a pluma
que no ar balança,
pela praia dança
a ligeira espuma.
Dançando se afaga
no alado bailar!
Pétalas da vaga,
poeira do mar…


Espuma de neve,
ergue-a num momento
a curiosa e leve,
vaga mão do vento.
Mas o vento, achando
que da mão lhe escorre,
com ela brincando
pela praia corre…

Eis se ergue e dissolve,
coisa láctea e pura,
onde o luar se envolve
na fervente alvura.
Espuma levada
das águas ao rés,
renda evaporada,
jóia das marés!

Grácil mimo e flor
de femínea graça.
que efémera passa
no eterno esplendor.
Em meus dedos, ágil,
um momento tive-a,
e na morte nívea
se me evola frágil.

Mais leve que a pluma
que no ar ondeia,
pela fina areia
baila, aérea, a espuma.
 E na dança etérea,
que impalpável ronda!
Bafo da matéria,
penugem da onda…

'Os Versos de Afonso Lopes Vieira', Lisboa, Sociedade Editora Portugal-Brasil, 1927  

segunda-feira, 23 de março de 2015

Luís Miguel Nava - FALÉSIAS

Poder-me-ão encontrar, trago um rapaz na minha
memória, a casa a uma janela
da qual ele vem como um sabor à boca,
falésias onde o aguardo à hora do crepúsculo.

Regresso assim ao mar de que não posso
falar sem recorrer ao fogo e as tempestades
ao longe multiplicam-nos os passos.
Onde eu não sonhe a solidão fá-lo por mim.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Luís Miguel Nava - Sem outro Intuito


Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

Luís Miguel Nava, in 'Vulcão'

Fernando Martinez Pozal - Marco fontanário


Fernando Martinez Pozal - marco fontanário
fotografia do Arquivo Municipal de Lisboa | fotográfico

Fernando Martinez Pozal

quarta-feira, 11 de março de 2015

PERO MEOGO - Levou-s’a louçana, levou-s’a velida:

Levou-s’a louçana, levou-s’a velida:
vai lavar cabelos, na fontana fria.
Leda dos amores, dos amores leda.

Levou-s’a velida, Levou-s’a louçana:
vai lavar cabelos, na fria fontana.
Leda dos amores, dos amores leda.


Vai lavar cabelos, na fontana fria:
passou seu amigo, que lhi bem queria.
Leda dos amores, dos amores leda.

Vai lavar cabelos, na fria fontana:
passa seu amigo, que a muit’amava.
Leda dos amores, dos amores leda.

Passa seu amigo, que lhi bem queria:
o cervo do monte a augua volvia.
Leda dos amores, dos amores leda.

Passa seu amigo, que a muit’amava:
o cervo do monte volvia a augua.
Leda dos amores, dos amores leda.

terça-feira, 10 de março de 2015

Alberto Carlos Lima - Paisagens Marítimas, 191-




Alberto Carlos Lima | fotografia do Arquivo Municipal de Lisboa | fotográfico


Alberto Carlos Lima | fotografia do Arquivo Municipal de Lisboa | fotográfico

ANTERO DE QUENTAL - OCEANO NOX


A A. de Azevedo Castelo Branco
Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o vôo do pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que idéia gravitais?

Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...

in: Antero de Quental, Sonetos, Livraria Sá da Costa Editora, 1979


Artur Pastor - Âncoras



fotografia de Artur Pastor | Arquivo Municipal de Lisboa|
Núcleo Fotográfico

CAMILO PESSANHA - CANÇÃO DA PARTIDA


Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei-de prender na volta do mar.
Ao meu coração um peso de ferro...
    Lançá-lo ao mar

Quem vai embarcar, que vai degredado,
As penas do amor não queira levar...
Marujos, erguei o cofre pesado,
    Lançai-o ao mar.

E hei de mercar um fecho de prata.
O meu coração é o cofre selado.
A sete chaves: tem dentro uma carta...
— A última, de antes do teu noivado.

A sete chaves — a carta encantada!
E um lenço bordado... Esse hei-de o levar,
Que é para molhar na água salgada
No dia em que enfim deixar de chorar.

in: Camilo Pessanha, Clepsidra, Lisboa, Ática, 1992

sexta-feira, 6 de março de 2015

Helena Nilo - Aquae



helena nilo | aquae 2013\2014

para o Luis Manuel Gaspar
Obrigada!

Sebastião da Gama - Raiz

Tanto dissemos tu e eu, tanta palavra!...
E os enganos, as lutas, aspromessas...
Como tudo vai longe! Como tudo foi útil e preciso!
Olha, vem à janela... Lá em baixo no largo,
brincam, junto da fonte, os moços e as meninas.
Alegres todos, riem. Nem reparam
como é triste uma fonte que não corre.
O que hão-de eles saber ?! Têm cinco, seis anos...

                                            Da janela
vemo-los bem. Vem à janela olhá-los,
felizes como nós...

Arrábida, Novembro de 51

in: Sebastião da Gama, Pelo Sonho É Que Vamos, Edições Arrábida

quinta-feira, 5 de março de 2015

Raul Brandão - MULHERES


«Outra vez rebuliço — agora é na fonte. Balbúrdia. Algumas são desbocadas, e aquela no auge da fúria curva‑se e bate palmadasem certo sítio, sobre as saias — quando não faz pior e o mostra… Então o barulho ensurdece. — Bateste no meu filho, grande porca! — Arrolada! — diz a outra. Arrolada é a pior de todas as injúrias… Dois cântaros partidos nas cabeças. A água inunda‑as e refresca‑as. E tudo volta ao silêncio. Só se ouve cantar nos tanques e o bater compassado da onda no cais. Aí tornam a passar as raparigas, com o cântaro à cabeça, a mão na cinta, e um fio húmido a escorrer‑lhes pela cara, apesar da cortiça que usam à superfície da água, para não se espalhar o líquido…»

in: Raul Brandão, Os Pescadores, ed. Vítor Viçoso e Luis Manuel Gaspar, Lisboa, Relógio D'Água, 2014

quarta-feira, 4 de março de 2015

ANTÓNIO OSÓRIO - O HIDRÓMETRA

Quando media
o débito da água
antes
no furo artesiano
lavava o rosto
e bebia.


De sua Mãe
se lembrava, devolvendo-o
(chuva) ao mundo.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Artur Pastor



fotografia de Artur Pastor  (Barroso)
Arquivo Municipal de Lisboa | Núcleo Fotográfico




fotografia de Artur Pastor (Sintra)
Arquivo Municipal de Lisboa | Núcleo Fotográfico





Nausica


(Versão de Traz os Montes)

Manhanita de São João,
Pela manhã de alvorada,
Jesus Christo  se passeia;
Ao redor da fonte clara,
Por sua boca dizia,
Por sua boca  falava:

-- Esta agua fica benta,
e a fonte fica sagrada.

Ouviu-o a filha de el rei
D'altas torres d'onde estava;

Vestiu suas meias de seda,
Calçou sapatos de prata,
Pegou num cantaro de ouro
Á fonte foi buscar agua.
Lá no meio do caminho
Com a Virgem se encontrava;
Atreveu-se e Perguntor-lhe
Se havia de ser casada?

Casadinha haveis de ser,
muito bem afortunada;
Tres filhos haveis de ter,
Todos  de  capa e espada;
Um será bispo de Roma
E outro cardeal em Braga
O mais novo d'elles todos
Servo da Virgem sagrada

Ditosa a donzelinha
Que foi á fonte que foi buscar água.


Teófilo Braga, Romanceiro Geral Português, 2ª edição

A moça da fonte

(Versão de Traz os Montes da Nausica)

Minha mãe mandou-me á fonte,
Á fonte do Salgueirinho;
Mandou-me lavar o cantaro
Com a flôr do rosmaninho.
Eu lavei-o com areia
E quebrei-lhe um bocadinho.

-- Anda cá, perra
Onde tinhas o sentido?
Não o tinhas tu na roca,
Nem tão pouco no sarilho,
Tinha-lo n'aquelle magano
Que anda de amores contigo.

«-- Ó minha mãe não me bata,
Com varas de marmeleiro,
Que eu estou muito doentinha,
Mande chamar o barbeiro,»

-- O barbeiro já alli vem,
Com a lanceta na mão,
Para sangrar a menina,
Na veia do coração.

-- Mal o hajas, tu, barbeiro,
E mais a tua navalha
Fôste sangrar a menina,
Na veia mais delicada.

Teófilo Braga, Romanceiro Geral Português, 2ª edição

Sebastião da Gama - POEMA DEPOIS DA CHUVA

(a Maria Guiomar)
Depois da chuva o Sol -- a graça.
Oh! a terra molhada iluminada!
E os regos de água atravessando a praça
-- luz a fluir, num fluir imperceptível quase.

Canta, contente, um pássaro qualquer.
Logo a seguir, nos ramos nus, esvoaça.
O fundo é branco -- cal fresquinha no casario da praça.

Guizos, rodas rodando, vozes claras no ar.

Tão alegre este Sol! Há Deus. (Tivera-O eu negado
antes do Sol, não duvidava agora.)
Ó Tarde virgem, Senhora Aparecida! Ó Tarde igual
às manhãs do princípio!

E tu passaste, flor dos olhos pretos que eu admiro.
Grácil, tão grácil!.. Pura imagem da Tarde...
Flor levada nas águas, mansamente...

(Fluía a luz, num fluir imperceptível quase... )


Estremoz, 12 de Fevereiro de 1951
Publicado em "A Teixeira de Pascoaes"

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Afonso Lopes Vieira - FEVEREIRO - A CHUVA

Nesta hora sozinha e pardacenta,
a chuva entra na aldeia...

No ar, cheio de musgo, a luz cinzenta
bruxoleia.

Através da vidraça,
vejo-a que chega: é uma mendiga escura,
trôpega e acurvada. E vem cansada.
Há, nos seus olhos vagos, amargura.
Oiço as suas passadas resignadas,
arrastadas por baixo da janela.
E digo para mim: -- É a chuva.-- E ela,
a triste vellha curva e turva, passa...

No ar, cheio de musgo, a luz cinzenta
bruxoleia.

E a chuva atravessa a aldeia.

Através da vidraça,
onde colei a minha face, agora,
contra o vidro tão baço como o céu,
vejo-a que vai: e vai p'la rua fora...

Não se ouve uma voz. E ninguém passa.

Tudo se sente só: a chuva e eu.

In: Afonso Lopes Vieira, Canções do Vento e do Sol, Ulmeiro, 1983

Artur Benarus - lavadeiras, em Espinho, 191-


[Artur Berarus]
fotografia do Arquivo Municipal de Lisboa | Núcleo Fotográfico




[Artur Berarus]
fotografia do Arquivo Municipal de Lisboa | Núcleo Fotográfico



[Artur Berarus]
fotografia do Arquivo Municipal de Lisboa | Núcleo Fotográfico





terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Branquinho da Fonseca - O Arquipélago das Sereias

Ó nau Catarineta
Em que andei no mar
Por caminhos de ir,
Nunca de voltar!

Veio a tempestade
Perder-se do mundo,
Fez-se o céu infindo,
Fez-se o mar sem fundo!

Ai como era grande
O mundo e a vida Se a nau, tendo estrela,
Vogava perdida!

E que lindas eram
Lá em Portugal
Aquelas meninas
No seu laranjal!

E o cavalo branco
Também lá o via
Que tão belo e alado
Nenhum outro havia!

Mundo que não era,
Terras nunca vistas!
Tive eu de perder-me
Pra que tu existas.

Ó nau Catarineta
Perdida no mar,
Não te percas ainda,
Vem-me cá buscar!

Afonso Lopes Vieira - Cantares dos Búzios

Ai ondas do mar, ai ondas,
ó jardins das alvas flores,
sobre vós, ondas, ai ondas,
suspiram os meus amores.

No fundo dos búzios canta
o mar que chora a cantar
ó mar que choras cantando,
eu canto e estou a chorar!

Ai ondas do mar, ai ondas,
eu bem vos quero lembrar:
«a minha alma é só de Deus
e o meu corpo da água do mar!»

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

ANTÓNIO CARNEIRO - AS ALGAS


Quanto tempo vogaram, embaladas
No seio profundíssimo do mar...
E, ao rolá-las na praia, a soluçar
Fica a onda de as ver abandonadas...


A novo beijo da água, de mansinho
As algas se insinuam, no desejo
Saüdoso de voltar; e, num harpejo,
Despede-as o mar, devagarinho...

Fonte de vida eterna, inexaurível,
Sendo só com a vida compatível
— A desse grande túmulo: a Terra,

Voragem pertinaz, assustadora,
Vai o mar rejeitando, hora por hora
Mortes que fez, as mortes que ele encerra.

António Carneiro, 'Solilóquios: Sonetos Póstumos', 1936