quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Luís Miguel Nava - Rios
Aqui, onde o vemos
correr, o rio mais não é que uma cortina, por trás
da qual corre outro rio. O
que no primeiro se reflecte
no outro transfigura-se.
Desprende-se o primeiro
do plano a que os sentidos o
mantêm agarrado, para assim
melhor entrar na alma, de cuja
incerta superfície faz as margens.
Disto isto doutra forma: assenta-nos
as margens na aspereza
da alma, a cujas reetrâncias
(já dizia o Pessoa) o sol não chega.
Mas nem ele é preciso. Uma só vela
nas trevas basta
para que o rio se ilumine
desde a foz à nascente.
É esse rio, idêntico a uma porta
que existe só por dentro e que por fora
foi já toda comida pelas trevas, que
nos serve de metáfora do tempo
(só o outro é literal)
e, tal como nas trevas - onde as ervas
e as flores são invisíveis -
o aroma verdeja, assim
o tempo, escoando-se, adquire
a cor da erva: e ontem, hoje
e amanhã mais não são do que tantos outros tons de
verde
que bovinamente a alma saboreia.
AQUI
terça-feira, 7 de outubro de 2014
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
António Lopes Ribeiro - Lisboa de Hoje e de Amanhã, 1948
Lisboa de Hoje e de Amanhã é um documentário português realizado,
escrito e narrado por António Lopes Ribeiro, produzido pela Câmara
Municipal de Lisboa, no ano de 1948. Consiste numa série de pequenas
filmagens de algumas zonas da cidade, com a explicação das mesmas por
Lopes Ribeiro e, música de fundo.
Este documentário é uma análise da cidade de Lisboa, feita por António Lopes Ribeiro, de quatro perspectivas: habitação, circulação, trabalho e, espaços de lazer. São divididas por quatro partes, cada uma com 10 minutos de duração. Num Portugal indirectamente devastado pela Segunda Guerra Mundial, este filme apresenta aquilo que já pudera ser feito e, tudo o que estava planeado fazer para tornar Lisboa numa cidade pioneira ao nível dos quatro pilares referidos. AQUI
Este documentário é uma análise da cidade de Lisboa, feita por António Lopes Ribeiro, de quatro perspectivas: habitação, circulação, trabalho e, espaços de lazer. São divididas por quatro partes, cada uma com 10 minutos de duração. Num Portugal indirectamente devastado pela Segunda Guerra Mundial, este filme apresenta aquilo que já pudera ser feito e, tudo o que estava planeado fazer para tornar Lisboa numa cidade pioneira ao nível dos quatro pilares referidos. AQUI
terça-feira, 23 de setembro de 2014
"Os 'Olhares Fotográficos' dos estrangeiros" sobre Portugal
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François Le Diascorn, Lamentações das três Marias, Évora, Portugal 1980 |
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Sabine Weiss, Interior de igreja em Portugal, 1954 |
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Cartier Bresson, 'Confissão', Igreja dos Jerónimos, 1954 |
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
Francisco Bugalho - Rega
Longa, lenta, melancólica,
Cantou a velha canção,
A nora triste da horta.
E uns brandos ares de bucólica
- Oh, lírica solidão! -
Bateram à minha porta.
Terra sedenta que espera,
Ansiosa todo o dia,
Estes momentos da tarde,
Agora se desaltera.
- Que, a esta hora tardia,
O beijo do sol não arde.
Toda se dá em perfumes
Que lembram, a quem os sente,
Vagos, sensuais desatinos.
Andam no ar vaga-lumes.
E a terra, molhada e ardente,
Tem desejos femininos...
Depois, a nora calou-se.
Ficaram-se murmurando,
Nos regos, já invisíveis,
- Murmúrio leve e tão doce!... -
Águas que vão retratando
Finas estrelas insensíveis.
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
Luis Manuel Gaspar - A Morte Nunca Existiu
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luis manuel gaspar, «a morte nunca existiu (antónio joaquim lança / josé mário branco)», '40xABRIL', lisboa, abysmo, 2014 |
LUÍS MIGUEL NAVA - DOIS RIOS
O corpo dividido em duas partes
fechadas
à chave uma na outra, avanço
num duplo coração como se fosse
ao mesmo tempo num só barco por dois rios.
terça-feira, 16 de setembro de 2014
terça-feira, 19 de agosto de 2014
Ermida da Memória, Cabo Espichel
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Helena Nilo | 14 de Agosto de 2014 |
A segunda tradição
do culto de Nossa Senhora do Cabo é transmitida por Frei Agostinho de
Santa Maria, no Santuário Mariano. "Outros affirmarão que a Senhora
apparecera na praya que lhe fica em baixo da mesma penha, aonde se
aedifcou a Ermidinha, e que apparecera sobre uma jumentinha, e que esta
suba pela rocha assima, e que ao subir hia firmando as mãos, e os pés na
mesma rocha, deixando impressos nella os vestígios das mãos, e pés; e
que de ser isto assim o affirmava a tradição dos que virão estes mesmo
sinaes, que já hoje tem gastado, e consumido o tempo. E como a Deos lhe
não he impossivel obrar mayores maravilhas, bem podemos crer obraria
esta, para que assim fosse por ella buscada, evenerada aquella
Santissima Imagem. Aquella Ermidinha que se fundo no lugar aonde a
Senhora parou, naquella liteirinha vivente que a levava, desfez muytas
vezes o tempo; mas a devoçam dos que a servem, a reformou outras tantas
vezes, pezar dos seus rigores". DAQUI
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Helena Nilo | 14 de Agosto de 2014 |
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Linho
30 de Dezembro
A vida é tecida como o linho: um fio de dor, um fio de ternura. Eu intrometo-lhe sempre um fio de sonho. Foi o que me perdeu.
Raul Brandão, Húmus
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fotografia de Artur Pastor [Arquivo Municipal de Lisboa | Núcleo Fotográfico] |
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fotografia de Artur Pastor [Arquivo Municipal de Lisboa | Núcleo Fotográfico] |
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
Eugénio de Andrade - Véspera da Água
Tudo lhe doía
de tanto que lhes queria:
a terra
e o seu muro de tristeza,
um rumor adolescente,
não de vespas
mas de tílias,
a respiração do trigo,
o fogo reunido na cintura,
um beijo aberto na sombra,
tudo lhe doía:
a frágil e doce e mansa
masculina água dos olhos,
o carmim entornado nos espelhos,
os lábios,
instrumentos da alegria,
de tanto que lhes queria:
os dulcíssimos melancólicos
magníficos animais amedrontados,
um verão difícil
em altos leitos de areia,
a haste delicada de um suspiro,
o comércio dos dedos em ruína,
a harpa inacabada
da ternura,
um pulso claramente pensativo,
lhe doía:
na véspera de ser homem,
na véspera de ser água,
o tempo ardido,
rouxinol estrangulado,
meu amor: amora branca,
o rio
inclinado
para as aves,
a nudez partilhada, os jogos matinais,
ou se preferem: nupciais,
o silêncio torrencial,
a reverência dos mastros,
no intervalo das espadas
uma criança corre
corre na colina
atrás do vento,
de tanto que lhes queria,
tudo tudo lhe doía.
IN: Obscuro Domínio, 1971
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