sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

RUY CINATTI - TARDE EM FATU-CAMA



Ondeio e conto cada salpico de onda,
que aflora nos meus olhos e entontece
o gesto de nadar, de ver a sombra
do braço mergulhando sem tocar
o fundo raso de areia fina.

E deixo-me levar, abandonar
pelo momento de lamento breve
que aproxima navios, transfigura neblinas
e retoma, afinal, a alegria
sensível voo d’ave inesperada.

Afogar-me, então, seria fácil
lento atravessar de afagos líquidos,
preso, no entanto, a um fio de vida
latente, cativo ao lume d’água.

Ruy Cinatti, 'Uma Sequência Timorense', Braga, Editora Pax, 1970

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