terça-feira, 26 de março de 2013




Manoel de Oliveira, Douro, Faina Fluvial, 1931
Adaptação musical: Maestro Luís de Freitas Branco



sábado, 23 de março de 2013

Sophia de Mello Breyner Andresen - PRIMAVERA


As heras de outras eras água pedra
E passa devagar memória antiga
Com brisa madressilva e Primavera
E o desejo da jovem noite nua
Música passando pelas veias
E a sombra das folhagens nas paredes
Descalço o passo sobre os musgos verdes
E a noite transparente e distraída
Com seu sabor de rosa densa e breve
Onde me lembro amor de ter morrido
— Sangue feroz do tempo possuído







Helena Nilo | Lisboa, 7.03.2013



Helena Nilo | Lisboa, 22.03.2013

Natália Correia - Fiz um conto para me embalar



Fiz com as fadas uma aliança.
A deste conto nunca contar.
Mas como ainda sou criança
Quero a mim própria embalar.

Estavam na praia três donzelas
Como três laranjas num pomar.
Nenhuma sabia para qual delas
Cantava o príncipe do mar.

Rosas fatais, as três donzelas
A mão de espuma as desfolhou.
Nenhum soube para qual delas
O príncipe do mar cantou.

Fialho de Almeida - 'A princesinha das rosas'




(...)
Captiva por aquella phantasmagoria do lago, 
a princesa desceu á praia uma noite ... o luar vinha
nascendo... — diz que uma barca atracara 
ás escadarias dos cães, negra barca de mudos barqueiros,
anões com hombros de titans, cujos olhos phosphorejavam
por baixo de chapéus feitos de grandes cogumellos.

Mas a princesa, a princesa? 

Diz que pelas velhas estradas trotam mensageiros
anciosos, creanças n'aquelle tempo, hoje velhos de 
mil annos, que vâo perguntando aos viandantes se a 
viram passar alli. Quanta maior certeza elles teem 
de não achar quem procuram, tanto mais frenéticos 
precipitam os voos seus cavallos esqueletos. 
(...)
 
Livro AQUI


Alexandre O’Neill - «O TEJO CORRE NO TEJO»


17.7.2012


Tu que passas por mim tão indiferente,
no teu correr vazio de sentido,
na memória que sobes lentamente,
do mar para a nascente,
és o curso do tempo já vivido.

Não, Tejo, 
não és tu que em mim te vês, 
- sou eu que em ti me vejo! 
Por isso, à tua beira se demora
aquele que a saudade ainda trespassa,
repetindo a lição, que não decora,
de ser, aqui e agora,
só um homem a olhar para o que passa.
Não, Tejo, 
não és tu que em mim te vês, 
- sou eu que em ti me vejo! 
Um voo desferido é uma gaivota,
não é o voo da imaginação;
gritos não são agoiros, são a lota…
Vá, não faças batota,
Deixa ficar as coisas onde estão…
Não, Tejo, 
não és tu que em mim te vês, 
- sou eu que em ti me vejo! 
Tejo desta canção, que o teu correr
não seja o meu pretexto de saudade.
Saudade tenho, sim, mas de perder,
sem as poder deter,
as águas vivas da realidade!
Não, Tejo, 
não és tu que em mim te vês, 
- sou eu, em mim, que me vejo! 


 In Poesias Completas, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002